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O homem que comeu de tudo

novembro 24, 2009

Na próxima edição da Verdemar em revista, os interessados em expandir seus conhecimentos sobre vinho poderão encontrar uma boa lista de livros e resenhas sobre o tema. Pegando carona na idéia, os leitores do blog poderão encontrar aqui periodicamente uma dica de leitura para expandir seus conhecimentos gastronômico-literários.

Em nossa primeira indicação, um grande livro que é uma verdadeira aula de como comer e de como cozinhar também. Com o invejável emprego de crítico gastronômico da badalada revista Vogue, Jeffrey Steingarten acumulou diversas experiências à mesa, muitas delas realmente científicas, e as reuniu em O homem que comeu de tudo. Sua inigualável ironia, autocrítica e, principalmente, apuração metodológica, fazem do livro uma deliciosa leitura.

O homem que comeu de tudo, de Jeffrey Steingarten. Editora Companhia das Letras. 496 páginas.

Quem tem a imagem do crítico gastronômico como um sujeito que apenas vai ao restaurante dizer ‘gostei’ ou ‘não gostei’ – que tem Anton Ego, do filme Ratatouille, como seu melhor representante – vai se surpreender com a escrita de Steingarten. Além de suas divertidas impressões pessoais, ele vai a fundo nas receitas e modos de preparo e explica, muitas vezes com relatórios técnicos sobre o tema, como e porque aquilo é tão gostoso.

Para ir a fundo em pratos e temas como vegetarianismo, ingestão de gorduras e comida de microondas, Steingarten formulou um guia bem interessante para homens e mulheres que também querem comer de tudo. Como um bom crítico, ele não queria perder a grande variedade de experiências culinárias que existem no mundo, e por isso decidiu ‘libertar o paladar e alma’ por meio de seis passos básicos:

  1. Listar suas ‘fobias gastronômicas’: o primeiro passo é saber o que não se come, para atacar de frente o problema.
  2. Procurar literatura científica sobre a seleção de alimentos: como onívoros, a não ser nossa predisposição ao nascer para o doce do leite materno, nosso paladar é apto a apreciar diferentes tipos de sabores. Restrições alimentares são, segundo as pesquisas de Steingarten, majoritariamente psicológicas.
  3. Escolher como lidar com a fobia: conhecendo o problema e que ele é possível de ser contornado, é preciso traçar sua estratégia.
  4. Exposição sistemática às ‘fobias gastronômicas’: como forma de vencê-las, Steingarten decidiu alimentar-se o máximo possível do que antes rejeitava. Uma valiosa lição é que bebês comem praticamente tudo que lhes é oferecido depois de oito ou dez tentativas, e adultos podem tentar o mesmo – além de ser um bom exemplo às crianças.
  5. Graduação: em seis meses, ele conseguiu vencer quase todas as suas fobias e celebrou um aumento substancial no seu leque de opções à mesa.
  6. Reaprender a humildade: para ser um perfeito onívoro, ele conta, é importante ser convidado novamente a jantares – por isso, nada de se vangloriar demais com os que torcem o nariz.

Dividido em capítulos independentes, fruto da organização de seus artigos pela Vogue, o livro pode ser degustado lentamente, aproveitando também para experimentar na cozinha o que Steingarten tentou – o texto é bem explicativo, e quem quiser seguir o passo-a-passo terá gratas surpresas na cozinha. Destrinchando cuidadosamente as receitas e olhando de lupa seus ingredientes, fica fácil, ou menos difícil, preparar pratos surpreendentes.

Aliás, essa é a grande lição gastronômica do livro: método. É ele que faz o pão primitivo ficar tão bom, o famoso wagyu ter suas propriedades bem exploradas, e um purê de batata ser bem saboroso. Como um bom crítico, Steingarten investiga cada aspecto da comida, ensinando-nos também a observar atentamente nos ingredientes texturas, sabores e aromas – mas sem esquecer seu sexto passo.

Além de gourmets, gourmands, cozinheiros, chefs, enfim, todos os amantes da gastronomia, O homem que comeu de tudo é também uma valiosa leitura para críticos amadores e jornalistas, dada a carência bibliográfica na área e a interessante maneira que Steingarten conduz seus artigos.


Mais do autor:
Deve ter sido alguma coisa que eu comi: segundo livro de Steingarten, lançado com o subtítulo ‘O retorno do homem que comeu de tudo’.
– Artigo O Onívoro (em inglês)

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